lista de coisas para ler, ouvir e ver

  • les liasons dangereuses, choderlos de laclos
  • charles baudelaire, le peintre de la vie moderne
  • the pillow book, peter greenaway
  • marie antoinette, sophia coppola
  • 36, Gerard Depardieu et Daniel Auteil: sombrio, mas imperdível
  • o que sobrou de cérebro na FSP: Rossi, Gaspari, Jânio de Freitas
  • o mercador de veneza, o filme
  • Gustave Flaubert, L'Éducation Sentimentale

Monday, March 23, 2009

o começo do outono no hemisfério sul: o ano solar, depois de thom yorke



Saturday, May 24, 2008

montréal, apropriações suaves




The New Beautiful City
A divided highway

The graffiti of Roadsworth has Montreal's politicians and police contemplating the differences between art and vandalism

by Laura Boudreau
photo by Peter Gibson

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The grey area between graffiti and vandalism is more than theoretical for Roadsworth: his controversial street images have turned pavement into politics in the city of Montreal and rekindled debate about the nature of public art.
Peter Gibson, the man behind the Roadsworth graffiti identity, began taking to the streets of Montreal in the early mornings of late 2001, spray-painting cyclist symbols on roads to protest the lack of bike lanes and paths in the city. Gradually his street images developed into increasingly symbolic displays of civic and environmental critique: pedestrian crossings on the Plateau Mont-Royal turned into giant footprints; orange stencils of barbed wire lined crosswalks; heart monitor-like spikes and valleys punctuated centre lines on roadways. Bemused Montrealers, many thinking that the city commissioned the road stencils, were left to contemplate the significance of these images.

The pieces were "very simple, open-ended, ambiguous,” says Gibson. “They were also somewhat integrated with the environment — the street, the road markings — giving them an almost subliminal quality.” Gibson adds, “I think my intention was to create a language that would function as a form of satire, accentuating the absurdity inherent to certain aspects of urban living, urban space, [and] public policy.” But evidently something got lost in translation: Montreal police arrested Gibson on November 29 last year and charged him with 51 counts of mischief, the charges carrying maximum penalties ranging from $200 to $5,000.

Gibson defends his works, claiming that they create free dialogue within the city’s commercial monologue. An economic, anti-ecological imperative holds the city hostage, Gibson says, and this deference to industry is symptomatic of the hypocritical way laws are applied in the city setting. As Gibson notes, “We aggressively pursue graffiti writers for scrawling their names on a wall across from a massive backlit billboard advertising Big Macs.”

Despite the claims of police that the Roadsworth images are a threat to public safety, Gibson argues that what they actually threaten is the corporate monopoly on public space.

Many Montrealers agree. Chris Hand, Director of Zeke’s Gallery on the Plateau, says that “at the street level — and elsewhere — there is a tremendous amount of support for Peter. I have yet to hear anyone say that they didn’t like what he did, and the only complaints are to vague ideas of public security. After I show them pictures of what [artist] Maclean did [using red tape to change “ARRET” signs to read “A R T”], it causes them to realize that, in comparison, Peter’s work was very benign.”

Gibson’s trial begins in January 2006, but his impact on Montreal will likely still be contested long after the courts decide his legal fate. Public space is full of competing and contradictory messages, but where is the line between public acts of self-expression and selfish acts of public vandalism? Roadsworth’s case highlights this debate surrounding art in public space.

Pop culture expert Dr. Tim Blackmore of the University of Western Ontario sees “L’Affaire Roadsworth” as a missed opportunity for discussion about public art. “I’m sympathetic to Roadsworth’s politics and like his art, but that’s not the issue. I get the sense that a lot of what Roadsworth is doing is basically stickin’ it to The Man. I’m little convinced that road art will do this. It will cause The Man to allocate more money for repainting.

“I think it’s a serious mistake for Montreal to drag Roadsworth into court,” Blackmore continues. “If I were in the position of advising the city, I would suggest that they meet with a collective of the graffiti artists and begin discussing public art seriously, allotting space for freestyle of all kinds.”

Gibson agrees that access is key: “If I were a city councillor, I think I would designate a lot of public space as free space — space where one could express anything.

“I love life in the city,” Gibson says. “I love the possibility for cultural and economic exchange.” It is, however, the collision between art and commerce in the public sphere that both inspires and infuriates Gibson, fuelling his unconventional form of protest: “Painting images on the street is actually a very innocuous gesture in the face of the problems that exist. We are living in serious denial if we feel that business as usual is going to ensure our continued survival and well-being.”

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UPDATE January 23, 2006: All charges against Gibson have been dropped. His punisment is a minor fine and 40 hours of 'community work' -- specifically artwork of his devising in The Plateau area of Montreal.

Friday, May 23, 2008

para laura, antes de ir a londres



lauritcha, dois desenhos da gabriela lansol pra te acompanhar; os livros você deixa pra ler na primeira volta. have fun.

Saturday, May 17, 2008

de volta, olhando james whistler


Friday, December 07, 2007

girls, you have to watch that...

what do you do for living? dont say anything before that "sex and the city num casamento em crise". have fun.

Sunday, September 23, 2007

espaços públicos VI

espaços públicos V




Ken Nagano, Orquestra Sinfônica de Montréal e Orquestra Sinfônica Jovem de Montréal. Esplanada do Place des Arts, fim do verão.

espaços públicos IV

Festival internacional de jazz, Montréal, julho de 2005
Rue Sainte-Catherine/Place des Arts

Festival de cinema de Montréal, setembro de 2007
Rue Sainte-Catherine/ Place des Arts

espaços públicos III








todo domingo, ao meio dia, começa o tan-tan no parque mont royal. tan-tan é um batuque em que percussionistas amadores se juntam pra tocar, o resto do povo pra vadiar e dançar. acaba ao anoitecer.

espaços públicos II


Magog, waterfront

espaços públicos I

Campus McGill, domingo à tarde, véspera do começo do semestre

canadian mood: cafeína e cacau a 70%


pode-se viajar, durante dias a fio, movidos a energias e encontros vitais. faz calor de alto verão em setembro, umas poucas folhas vão avermelhando ao redor de Montréal.uma vez K. voltou de espanha e portugal reclamando: no final, tudo é castelo, castelo, castelo. castelo, castelo... aham... castelos. lembrei-me dela, ri de novo tudo que rira ao ouvir o comentário cheio de enfado e senti saudade; viagens são para isso, para ter vontade de reencontrar amigos de quem só se tem notícias breves e longínquas. K., na minha querida cidade ao norte, acolhedora como só, - e em seus arredores - tudo é parque, parque, parque... parque. nem você se enfastiaria.Parc La Fontaine, Montréal

Sunday, August 26, 2007

inconclusões, mas a caminho de algum lugar

sobre a educação e seu futuro, duas avaliações brasileiras:
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O tamanho do Brasil pobre
Bolsa-Família não basta: é preciso casa, emprego e, principalmente, educação

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Pedro Doria
Em 2005, 7,5 milhões de famílias eram atendidas pelo Bolsa- Família. O número atual chega a 11 milhões de famílias, ou mais de 45 milhões de brasileiros, quase um quarto da população. Um em cada dois nordestinos é atendido pelo programa. “É muita gente, sim”, diz a professora Sônia Draibe. “Este é o tamanho do Brasil pobre.”

A professora é uma enciclopédia de políticas sociais. Não cita uma política do governo brasileiro, seja atual ou seja passado, sem compará-la com o que foi feito em algum outro país. Às vezes o Brasil se sai bem: “Temos uma cobertura previdenciária maior que a do México”; na maioria das vezes, sai-se mal.

Isso acontece principalmente quando a questão é educação. “Não temos muito o que fazer pelos adultos atendidos pelo Bolsa-Família, mas para os jovens há esperança”, diz ela. Não que as políticas deste governo ou do anterior tenham atacado as raízes do problema. “Nos anos 60, os EUA fizeram políticas parecidas, mas a escola estava envolvida, os professores se dedicavam mais aos alunos assistidos pelo programa social”, explica.

Para Sônia Draibe, o programa estimula algo que já acontecia - a presença na escola -, mas não é eficaz em garantir rendimento escolar. “O que explica que um país com nosso nível de desenvolvimento tenha chegado a este ponto educacional?”, ela se pergunta, para responder em seguida: “Nada.” E provoca: “Estamos fazendo algo para tirar esta nova geração da pobreza?”. Segundo ela, não.

O Bolsa-Família alcança um quarto da população. Isso é demais?

Um quarto é muito, sim. Mas este é o tamanho do Brasil pobre. Isso tem a ver com nossas heranças e tem a ver com nossa política social e econômica atual.

Como explicar que a pobreza esteja na cidade e não no campo?

Entre as décadas de 50 e 70, 40 milhões de pessoas migraram para as cidades. É uma Argentina inteira em 30 anos. Imagine a estrutura urbana e de serviços sociais que é preciso construir com rapidez para admitir um mínimo de decência para a vida. A urbanização acelerada, fruto da industrialização, desenvolveu o País. Como em todo o mundo, sistemas de proteção social foram erguidos nesse período de urbanização para substituir as antigas formas de proteção comunitárias do campo, que não funcionavam mais. No Brasil, quando a ditadura terminou, tínhamos uma cobertura de Previdência Social maior do que a do México, uma vasta rede de hospitais que pertenciam ao Inamps, muitas escolas. Se formos comparar com outros países de médio e baixo desenvolvimento, tínhamos uma infra-estrutura razoável, embora produzindo resultados ruins.

O que se fez para enfrentar esse problema?

O governo Itamar Franco foi o primeiro a ensaiar uma política de combate à pobreza. Mas foi o Comunidade Solidária, no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, que procurou atacar o problema, melhorando a oferta de serviços que podiam ter impacto sobre os pobres - educação básica, vacinação, leite para as crianças, posto de saúde, pré-natal. Mas não havia, ainda, transferência monetária.

Há críticas ao repasse de dinheiro.

Isso sempre foi polêmico no Brasil. Em outros países não é assim, mas aqui sempre houve resistência, tanto entre conservadores quanto entre progressistas. Quando eu estava na faculdade, diziam: “A primeira coisa que o pobre fará com esse dinheiro é comprar pinga”. Depois não era mais pinga, diziam que compraria radinho de pilha. Supunha-se que o pessoal com menos educação não usaria bem o dinheiro.

Faz sentido essa resistência?

Não. Na década de 1980, o governo Franco Montoro, em São Paulo, criou um programa que repassava dinheiro às famílias que recebiam seus filhos vindos da Febem. Como o dinheiro era pouco, essas famílias juntavam tudo num bolo e cada mês faziam um mutirão na casa de uma. Ou então poupavam por uns meses para comprar um carrinho de pipoca para aquele rapaz que agora precisaria trabalhar. Ao mesmo tempo, outros programas, que forneciam recursos, fracassavam por não levar em consideração hábitos regionais. Aqui em São Paulo, por exemplo, distribuíram feijão preto, que só é consumido no Rio. As pessoas jogavam fora.

Como foram os projetos de transferência de renda com FHC?

O primeiro dos projetos federais de transferência monetária foi o Bolsa-Escola, que teve uma implementação muito difícil. Havia muita tensão com a equipe econômica e a fiscalização da contrapartida para a transferência - a freqüência às aulas - sempre foi difícil. Muitos municípios não tinham condições de fazê-lo. Em 2000, o Congresso aprovou a criação daquilo que o governo tentou evitar no início, que é um Fundo de Pobreza, vinculado à CPMF. Foi isso que passou a financiar o Bolsa-Escola, o Bolsa-Alimentação, o Vale-Gás e outros programas menores.

Em que o Bolsa-Família é um programa diferente?

Até 2002, o Bolsa-Escola estava no Ministério da Educação, o Alimentação, no Ministério da Saúde, e assim por diante. O governo Lula juntou todos os que havia, mais aquele que criou, o Fome Zero, e tirou das áreas técnicas, passando para os cuidados da Casa Civil e, depois, do Ministério de Desenvolvimento Social. Já havia um projeto de juntar tudo. Você fornece um só cartão magnético, o que é mais racional. Mas tirar das áreas técnicas e mudar o nome é ruim. Quando você chama de Bolsa-Escola, está clara a obrigação das famílias de fazer as crianças freqüentarem a escola. Quando chama de Bolsa-Família, essa ligação desaparece.

Então essa é uma falha do governo Lula?

O governo Lula expandiu o auxílio, o que é correto. Mas o que nem o projeto dele nem o do governo anterior têm é aquilo que havia no programa de incentivo à educação patrocinado pelo governo Lyndon Johnson, nos EUA. O dinheiro vinha, mas as escolas estavam envolvidas. Do diretor aos professores, todos davam atenção especial ao aluno bolsista. No governo Cristovam Buarque, no DF, ele tentou fazer isso. É preciso criar um mecanismo para envolver mais as escolas, os postos de saúde. Mas isso não aconteceu.

Resolveria o problema da pobreza?

O objetivo é interromper o ciclo vicioso da pobreza, via educação e saúde, nas gerações mais novas. Então temos que nos perguntar se esse formato de programa vai atender melhor o Brasil. A tradição brasileira é que, na faixa dos 7 aos 14 anos, a maioria das crianças esteja na escola, com programa ou sem programa. Eles repetem muito, saem da escola, voltam. Chegam aos 14 na 2ª série. O programa de bolsas melhorou um pouco a freqüência, mas não muito. Onde encontramos crianças e adolescentes fora da escola? Na pré-escola e depois dos 15 anos. Aí tem muita gente fora. Agora o governo está reforçando o investimento na faixa de 15 a 18 anos. O México, por exemplo, paga um valor diferente para cada fase da escola. Até a 3ª série é um valor, daí à 8ª é outro e, no ensino médio, o valor compete com um salário no mercado de trabalho. Porque, assim, o programa vai incentivando a progressão escolar.

Há perigo de clientelismo?

Com manipulação ou não, o ganho eleitoral com esse tipo de política é sempre muito forte. Se você pegar a curva de distribuição do Bolsa-Família, verá que o programa, entre março e outubro do ano da reeleição de Lula (2005) passou a atender de 7 milhões a 11,2 milhões de pessoas. Não é só o PT que faz isso e esse é um risco da democracia.

Quanto dessa distribuição de renda está sendo às custas dos setores médios da sociedade em lugar dos mais ricos?

Há um estudo da Unicamp que analisa a distribuição de renda por profissão. Quando você vê aquelas típicas da classe média, percebe que há um enxugamento muito grande e isso altera a redistribuição, já que diminui a distância entre o pobre e a classe média. Mas não quer dizer que o Bolsa-Família seja às custas da classe média. O empobrecimento dos setores médios vem de baixos salários e desemprego. Faltam crescimento econômico e políticas de emprego.

O que mais falta ao Brasil?

É preciso democratizar o crédito. Isso é política redistributiva, também. Não temos política de moradia: há um déficit de 12 milhões de habitações. Agora, se tirar essas bolsas, o que acontece? Volta tudo ao que era. Não há muito como capacitar os adultos, mas há esperança para os jovens. Mais grave que a má distribuição de renda é o problema da educação. Pessoalmente, já não sei mais nem onde encontrar explicação. Só estamos melhores, hoje, em educação, do que a Bolívia e talvez o Paraguai, na América do Sul. O que explica que um país com nosso nível de desenvolvimento tenha chegado a esse ponto? Nada. Apenas 60% dos meninos com idade de ensino médio vão à escola. Chile e Argentina estavam assim em 1970. Hoje estão nos 90%. O México também está melhor que nós. Estamos fazendo algo para esta geração que desejamos tirar da pobreza? Este programa não é suficiente. Estamos ajudando a sustentar um quarto da população, o que não é pouco. Mas como vai ser o futuro deste país?

GILBERTO DIMENSTEIN

Reféns dos filhos
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O Bolsa Família funciona como uma reparação de guerra de uma nação, lamento dizer, de derrotados
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MAIS UMA BOLSA a caminho. Está previsto para o dia 5 de setembro o anúncio do governo federal da distribuição de dinheiro diretamente aos jovens de 15 a 17 anos, desde que freqüentem a escola. Imagina-se que, assim, eles não venham a engrossar as estatísticas educacionais de evasão escolar e que tenham chance de obter um emprego no futuro. Faz sentido?
Podemos levantar uma série de dúvidas sobre até que ponto mais dois ou três anos em uma escola ruim ajudariam alguém a obter um emprego, especialmente nas regiões metropolitanas, nas quais se exige mão-de-obra mais preparada. Mas não se pode negar que o novo benefício faça sentido se o objetivo final das bolsas é dar autonomia aos indivíduos, não fazê-los eternamente dependentes de assistência pública.
Na semana passada, o governo federal divulgou balanço sobre o Bolsa Família, com reluzentes números: mais de 41 milhões de pessoas beneficiadas, o que representa a maior parte da população com menor poder aquisitivo. Ao ler o perfil dos beneficiários, tem-se a satisfação de ver que os recursos vão mesmo para quem mais precisa, mas é inevitável a conclusão de estar nascendo uma multidão de pais e mães reféns dos filhos que fazem da paternidade uma profissão. O que acontecerá quando as crianças crescerem e os pais perderem a fonte de renda?


O governo alega que está em andamento a articulação de uma série de programas de diferentes ministérios para que se ofereça uma porta de saída, ou seja, condições de o indivíduo não depender mais de favores oficiais. Fala-se em juntar vários projetos, desde as aulas de alfabetização, passando pelo microcrédito, até a capacitação profissional. Mesmo que esses programas sejam bons, quantos indivíduos sempre serão dependentes?
Certamente não interessa ao governo dar com clareza a resposta. O perfil divulgado dos beneficiários das bolsas sugere que, para muitos deles, dificilmente haverá porta de saída. Expressiva maioria deles são de adultos incapazes de ler e entender um texto simples. Há uma quantidade gigantesca de mulheres chefes de família com muitos filhos.
Isso sem contar as multidões de brasileiros, cujo acúmulo de doenças não tratadas fez que perdessem as condições necessárias de saúde para manter um emprego. Mesmo com o crescimento das oportunidades de emprego, pessoas com tais carências têm dificuldades de entrar no mercado formal de trabalho. Isso significa que o Bolsa Família não presta? Não, mas significa que não estão contando toda a verdade.


É evidente que não se deve deter o esforço de garantir a autonomia dos 11 milhões de famílias que recebem as bolsas. Articular diferentes ações nos âmbitos federal, estadual e municipal, auxiliando na capacitação profissional, certamente trará efeitos positivos. A experiência mostra que, quanto mais e melhor se fizerem os chamados arranjos educativos, aproveitando as vocações econômicas locais, maior será a chance de emprego. O somatório dos pequenos arranjos, espalhados pelos municípios, vai tirar gente daquela lista dos 11 milhões de famílias.
Para os adultos, o Bolsa Família é simplesmente uma redução de danos. E, aí, funciona bem. Como o dinheiro vai mesmo para os mais pobres, aumentou o consumo de alimentos, ativaram-se comércios locais e melhorou a distribuição de renda. Pesquisadores começam a perceber mudança no fluxo migratório, já que as famílias teriam mais condições de ficar em suas cidades.
Evita-se que sejam obrigadas a viver nas favelas urbanas à procura de algum bico, vítimas da violência. Há indícios até mesmo de volta dos migrantes para sua terra.
O problema é que se paga uma conta passada de uma série de omissões que vão da falta de atenção ao ensino básico, passando pela pouca seriedade nos planos de irrigação, até a pouca oferta de planejamento familiar. O Bolsa Família funciona, então, como uma espécie de reparação de guerra de uma nação, lamento dizer, de derrotados.


Dá para apostar - daí o sentido da bolsa para os jovens de 15 a 17 anos- menos nos pais do que nos filhos do Bolsa Família, desde que recebam educação com um mínimo de qualidade. Pela primeira vez em nossa história, transformou-se em consenso a idéia tão óbvia de que a porta de saída começa no berço. Fora disso, é só redução de danos.


PS - Um dos piores exemplos sociais brasileiros está na cidade de São Paulo, onde se criou o "turno da fome". Por falta de espaço, os estudantes ficam na sala de aula na hora do almoço. Mas, do vexame, vemos surgir a força das lideranças locais. Em vez de esperar pela construção de novas escolas ou salas, diretores e professores reuniram-se para discutir a ocupação do espaço e foram achando pequenas soluções. Sem gastar, conseguiram tirar 114 mil crianças do turno da fome e elas começaram a ter uma hora a mais de aula por dia. A porta de saída para o desenvolvimento social brasileiro é a engenhosidade comunitária.

ícone, presságios e alguma sorte

faz, por aqui, o mormaço inevitável do mês de agosto. há a luz e a temperatura desse mês sempre ímpar, qualquer que seja a década: para que eu nunca esqueça os términos de um ano astral, nem da leveza do ar quente.

Sunday, August 12, 2007

resistir ao novo fundamentalismo

Tuesday, August 07, 2007

domingo no parque de diversões

observando uma geração envelhecer e torcendo pra viver outras quatro décadas

Sunday, July 29, 2007

inner city

é uma propaganda de um canal de tv, mas é a cara disso aqui: "se você mora num lugar em que você diz 'arreda' e as pessoas entendem; se você tem amigos de escola, não importa qual seja a sua idade; se você sempre encontra alguém conhecido em qualquer lugar a onde vá - então você vive em belo horizonte." depois de passar o mês de julho encontrando amigos que moram fora mas visitam esse lugar religiosamente uma vez por ano, você cede aos piores impulsos bairristas, você até se diverte...

Friday, July 27, 2007

CLÓVIS ROSSI -Quatro anos para ver o óbvio

Folha de São Paulo, 26/07/07

É formidável a rapidez fulminante com que o presidente Lula tira conclusões. A mais recente delas surgiu na posse de Nelson Jobim como novo ministro da Defesa: "Digo categoricamente que é preciso repensar neste país o Ministério da Defesa. Porque o Ministério da Defesa, tal como está, está aquém daquilo que é a exigência da sociedade brasileira. É preciso que tenhamos um ministério com a força suficiente para fazer o que precisa ser feito. Desde reequipar as Forças Armadas brasileiras até colocar pessoas para tomar conta de tudo o que é pertinente".
Quanto tempo mesmo faz que Lula é presidente da República? Quatro anos, seis meses e 25 dias, certo? Caramba, como é que conseguiu em tão pouco tempo descobrir tudo de uma vez só? Aliás, não seria em todo lugar, e não só na Defesa, que é preciso colocar "pessoas para tomar conta de tudo o que é pertinente"?
Ficamos, pois, sabendo que, pelo menos no Ministério da Defesa, não havia uma "pessoa para tomar conta de tudo o que é pertinente". Só não se sabe se havia alguém que tomasse conta de "coisas que não são pertinentes".
Só lamento ter que discordar de de Lula quando diz que "não é segredo para nenhum brasileiro que temos uma crise no setor aéreo, numa combinação de várias coisas que vêm acontecendo nos últimos meses".
Um brasileiro, chamado exatamente Luiz Inácio Lula da Silva, não sabia que havia uma crise, tanto que levou todos esses meses até decidir fazer alguma coisa.
Seria bom que o presidente aproveitasse o momento de descoberta do óbvio que viveu ontem para pôr de lado a auto-exaltação em que se tornou campeão para reconhecer que há uma pilha de outros setores que é preciso repensar. Não tem mais quatro anos para enxergar a vida como ela é.

CLÓVIS ROSSI

Folha de São Paulo 27/07/2007
Por fim, o próprio governo começa a admitir sua nudez, ainda que parcial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribui a crise aérea à falta de "comando" no setor, o que o novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, reiteraria. Desnecessário dizer que é uma auto-inculpação. Todo mundo sabe que o comandante supremo, nessa como nas demais áreas do Executivo, é o presidente da República, até pelo fato de que é ele quem nomeia e demite os ministros e os chefes das três forças.
Portanto, se a culpa pela crise aérea é da falta de comando, quem é o culpado? Só os debilóides do lulo-petismo não sabem. Quem também expôs claramente a nudez do governo foi José Carlos Pereira, presidente da Infraero, até a hora em que escrevo. Disse, com todas as letras: "Tinha como um dos meus projetos dar uma limpeza na empresa, mas não consegui nada disso. Basicamente por muita pressão política".
Tem-se, então, que a Infraero era e continua sendo uma empresa "suja", palavra de quem a preside. E que é suja por conta da "pressão política", que só pode ser exercida pelos políticos ligados ao governo. A oposição pode até ter "sujado" a Infraero, quando era governo, mas José Carlos Pereira não está se referindo ao passado da empresa, e sim ao seu presente.
Parte da sujeira, aliás, já havia sido exposta pelo Tribunal de Contas da União, que, ao analisar meros 20% da obra de Congonhas, achou 12 irregularidades, como superfaturamento de quase R$ 13 milhões. Por isso, é tão importante para o governismo que a culpa do acidente da TAM seja do avião ou do piloto. Se for da pista, será inescapável concluir que se fez mais uma "sujeira", durante o que deveria ser a mãe de todas as reformas. O diabo é que as sujeiras anteriores não deixaram mortos.

Wednesday, July 25, 2007

ELIO GASPARI - A micromegalomania de Lula é contagiosa

O FESTIVAL de besteiras com que o governo de Nosso Guia tem assolado o país é algo sem precedente, mas seria uma pobreza condená-lo apenas por dizer bobagens. O problema é bem outro, pior. Houve o "relaxa e goza" de Marta Suplicy, mas, antes dele, Lula anunciou, do alto da sua micromegalomania (caso raro de mania de pequena grandeza): "Quero prazo, dia e hora para anunciar o fim da crise dos aeroportos".
Na segunda-feira, o presidente da Infraero produziu uma nova marca, difícil de ser superada. A Federação Internacional dos Controladores de Vôo condenou a gestão da crise e sugeriu uma interferência externa. Trata-se de um organismo corporativo e sem representatividade, mas nem por isso se pode dizer que esteja propondo um absurdo. A resposta veio do brigadeiro José Carlos Pereira, presidente da Infraero: "A crise é nossa, os mortos são nossos".
Para quem lembra desse tipo de retórica na campanha do petróleo, no anos 50, esse é um triste fim para os sentimentos nacionalistas. Exacerbações nativistas podem atrair uma velha maldição do ensaísta inglês Samuel Johnson (1709-1784): "O patriotismo é o último refúgio do canalha". Em Pindorama, o patriotismo foi usado pelos escravocratas do século 19 para desqualificar as pressões da esquadra inglesa e pelos ditadores do 20 para acobertar as torturas e os assassinatos condenados pelo governo do presidente americano Jimmy Carter (1977-1981).
A economia brasileira foi vigiada pelo Fundo Monetário Internacional. Há lixões em São Paulo cuja emissão de gases é monitorada por empresas americanas a serviço de organismos internacionais. Em 2003, interessado em conhecimentos técnicos sobre segurança nos aeroportos, um diretor da Infraero pediu socorro à Embaixada americana. Se alguém dissesse que a desordem fiscal, os lixões e a ignorância aerocrática são nossos, certamente passaria por bobo.
Numa primeira camada, as tolices ditas pelos companheiros refletem a inteligência de cada um deles. Até aí tudo bem, ninguém é obrigado a fazer nexo. Olhando-se com mais atenção, vê-se que há em cada bobagem um elemento de prepotência. O rapaz da Anac ganha uma pataca e quando lhe perguntam se não há contradição entre a homenagem e o tamanho da crise, explica: "A Aeronáutica é que tem que responder". Uma senhora que ocupa uma cadeira na diretoria da Agência e fuma charutos em público, dá aulas: "Deixa eu te falar uma coisa: o acidente não foi no ar. Ninguém bateu no ar, tá? Então, o acidente não tem nada a ver com o número de vôos em Congonhas, tá?"
As besteiras que desmoralizam o segundo mandato do Nosso Guia resultam de uma concepção burocrática, autoritária e delirante do exercício do poder. É o contágio da micromegalomania. Cada um manda no seu pedaço com a imponência de Al Gore e a inteligência de Mike Tyson. Lula exige dia e hora para a crise acabar, a Anac informa que não teve nada a ver com o que aconteceu em Congonhas, a Infraero diz que "os mortos são nossos" e quem cobra soluções ao conjunto do governo é considerado um idiota. Reencarnam um superintendente da Sudene que, durante a ditadura, atribuiu a seca do Nordeste à falta de chuvas.

Tuesday, July 24, 2007

As linhas da crise - JANIO DE FREITAS

JÁ É HORA de começarmos a separar o joio do joio.
A idéia que está feita da crise na aviação reproduz a própria desordem posta em questão. Fatores alheios entre si estão misturados, tanto no tratamento público da crise como na perplexidade governamental, em tal proporção que o todo fica ininteligível, e as partes, menos abordáveis.
Os aspectos gerais da crise são o ponto de partida possível aqui, para uma olhar com o propósito de ajudar à sua compreensão e debate das possíveis soluções devidas pelo governo. É possível distinguir na crise duas linhas de problemas que se agravam mutuamente, mas têm naturezas diferentes. E, portanto, procedências distintas. Uma dessas linhas é composta por companhias aéreas e aeroportos; a segunda veio de precariedades do controle aéreo e outras atividades de suporte da aviação civil.
Está estabelecido que a desordem nos serviços aéreos tem dez meses, data do choque entre chefiados e chefes no controle aéreo, em seguida à derrubada do avião da Gol pelo Legacy. A desordem, no entanto, vem de muito mais longe, e a progressão foi toda acompanhada pela imprensa. Seu ponto visível mais distante ficou nas turbulências que levaram o conselho da Varig a afastar, em abril de 1995, o presidente da empresa, Rubel Thomas, que assumira cinco anos antes. Para espanto geral, a "nossa Varig" estava sob riscos graves.
Fernando Pinto assumiu e em pouco a Varig exibiu outra vez sua excelência, até que, por motivos nunca explicados, o conselho substituiu o presidente. Enquanto se desenvolveu uma série incessante de quedas e nomeações de novos presidentes, Fernando Pinto, chamado para salvar a TAP, elevou essa empresa portuguesa a progresso extraordinário no negócio mundial de aviação (a ex-crítica TAP foi, no ano passado, pretendente à compra da Varig).
Desde o retorno dos seus desarranjos e por todo o longo estado de coma, até a fase terminal, a empresa aérea dominante, quase absoluta, não deixaria de despejar reflexos muito fortes sobre todo o sistema da aviação comercial brasileira. A cada vôo que a Varig atrasou ou nem pôde fazer, a cada linha que abandonou ou avião que perdeu por venda ou devolução, produziu congestionamento em aeroportos; conturbação nas programações de outras companhias, com a alocação imprevista de passageiros e alteração de rotas; e com a redistribuição de linhas entre empresas que, embora as disputassem, não estavam (e ainda não estão) preparadas para assumi-las em tamanha quantidade e com tão grande intensidade de vôos.
O conceito de horário perdeu-se por aí, as vendas excessivas de passagens (o tal overbooking) banalizaram-se, tudo saiu de ordem no funcionamento das companhias, que tratavam de aumentar as suas frotas o mais depressa possível. O desastroso sistema de conexões foi multiplicado, congestionando ainda mais os balcões de atendimento e dependências dos aeroportos, mas permitindo às companhias lotações mais proveitosas e o corte de vôos que lhes eram problemáticos. Para dar a essa balbúrdia o cenário adequado, a Infraero pôs em obras os aeroportos de Congonhas e Santos Dumont.
Foi sobre tal quadro que incidiu a segunda linha componente da crise aérea: os problemas no controle aéreo, que independiam, nas suas causas e no desenvolvimento, do que se passasse nas companhias aéreas e nos aeroportos. Assim como tudo o que degenerou nestas e nestes, até que ocorresse o choque do Legacy com o avião da Gol, independeu das insuficiências na infra-estrutura do controle aéreo. As duas linhas de problemas vieram a agravar-se mutuamente, mas continuam distintas.
No decorrer de todo o processo desordenador, os aeronautas e seu sindicato produziram estudos e documentos sobre a realidade e as perspectivas, cada vez mais sombrias, da aviação comercial no Brasil. Se o velho DAC, o Departamento de Aviação Civil, devia sair da área militar e ceder o espaço a mais uma agência dos sonhos fernandistas, a Anac nasceu para nada. Ou melhor, para piorar, por ser mais um setor responsável sob acusação de irresponsabilidade. É de suas funções, porém, que podem vir o enquadramento das companhias aéreas e um plano nacional de aviação que reponha ordem e racionalidade em um dos lados da crise. Quando ou se, é outro assunto.

Monday, July 23, 2007

a categoria dos filmes iguais, mas singulares

eu e todo o mundo conhecemos essa tipologia de cinema: quando os estados unidos descobriram Bergman - depois de Beleza Americana, do tempero de Robert Altman, Tom Cruise de garanhão marinado em testosterona e trilha sonora com Supertramp em magnólia - então nem é um flme novo ou qualquer coisa que o valha. no texto que coloquei a seguir Calligaris discorda que seja um filme sobre a vida cotidiana, mas é. As tragédias eram, e Hamlet também. é um filme, não obstante a repetição - ou talvez por causa dela - obrigatório de se assistir. eu e todo o mundo já vimos essa história passar diante dos olhos. aqui mesmo, na rua, no vizinho do lado. e eu nem moro num condomínio.

""PECADOS ÍNTIMOS", de Todd Field, estreou no dia 9 de fevereiro. Parecia ser mais um filme sobre a vida nos subúrbios americanos de classe média, tipo "Beleza Americana" (vencedor do Oscar em 2000), e fiquei com preguiça. Sempre acho um pouco fácil satirizar uma maneira de viver, como se o jeito da gente fosse o certo: "Aponto o vazio na vida dos outros para me convencer de que a minha é autêntica e plena".
Vários leitores me escreveram estranhando que não comentasse o filme. Graças a eles, assisti, enfim, a "Pecados Íntimos", que NÃO é um filme sobre a vida nos subúrbios americanos (a não ser que você considere que "Hamlet" é uma peça sobre a vida na corte da Dinamarca durante a Idade Média).
"Pecados Íntimos" é um filme tocante e verdadeiro sobre os caminhos forçados de nosso desejo e sobre como ele encalha (quase sempre) e se solta (aos trancos).
Quando ensinava "Cultural Studies" na New School, começava dizendo a meus estudantes que eles eram livres para tirar todas as notas
A que quisessem, mas, para entender a subjetividade moderna, eles teriam que passar por três letras B: Brummel, Byron e Bovary. Não era só uma piada de professor: as três figuras em questão, afinal, falam todas de nossa impossibilidade de conseguir, na vida, a nota máxima.
Um B já é de bom tamanho. Brummel (o primeiro dandy, no fim do século 18) lembra que a nobreza não é efeito do berço em que a gente nasce; ela é fruto da "elegância" (não tanto das maneiras e da roupa, mas do espírito). O hábito, na modernidade, faz o monge, e somos livres para escolhê-lo. Mas essa liberdade tem um custo: o desconforto de apenas parecer o que somos e, claro, a aflição de parecer o que não somos ou não queremos ser. O hábito faz e aprisiona o monge.
Byron (o poeta romântico) lembra que, na vida moderna, o que importa é a intensidade e a variedade de experiências. A fome de viver e o anseio de aventuras levam alguns a lutar pela independência da Grécia, a pular de skate quando mal sabem andar ou a perder-se nas sarjetas do mundo. E nos levam a sonhar com o que não ousamos empreender.
Emma Bovary (a heroína do romance de Flaubert) lembra que o amor é o grande operador moderno da mudança. Descobrimos que podíamos inventar nossa vida quando começamos a casar por amor (e não para preservar a casta, a família e o patrimônio). Portanto, esperamos do amor que ele nos transforme e nos leve para uma "outra" vida (e toda vida tem uma "outra" vida com a qual sonhar).
Numa cena de "Pecados Íntimos", "Madame Bovary" é comentado por um grupo de mulheres. Elas descobrem (a contragosto) que são todas, de um jeito ou de outro, Emma Bovary: inconformadas com sua vida e desejosas de um amor que as salve.
Mas "Pecados Íntimos" é mais que uma adaptação de "Madame Bovary": é um pequeno "tratado" da subjetividade moderna. Até porque, justamente, Emma Bovary sentia que ela era muito mais do que parecia pela "rotina" de sua vida. E seus sonhos de amor eram sonhos de experiência e aventura. Ou seja, os três "B" estão sempre juntos, dentro da gente.
Além disso, é difícil sair do cinema sem se perguntar por qual mistério somos condescendentes com nossas impulsões (o pedófilo e a protagonista não são os únicos que não sabem resistir às tentações) e, ao mesmo tempo, inertes quando se trata de mudar de vida. O desejo só consegue se expressar por sobressaltos. É como se, contra o nosso desejo, tivéssemos erigido um dique inútil: a água irrompe, forte, pelas pequenas falhas, mas sua massa não se transforma em energia para inventar a vida.
A incapacidade de mudar, aliás, é o grande tema do filme. Há a mãe do pedófilo, que espera que o filho se torne "normal", mas, olhe só, coleciona estatuetas de meninos. Há a mulher que não quer perder o marido, mas enfia o filho no meio da cama e vigia a vida do esposo como uma mãe. Há a mulher que morre de tédio e transa com o marido toda terça às 19h30, embora sonhe em conseguir o telefone de um bonitão.
Há o homem que cansou de ser babá do filho, mas, quando se trata de estudar para o exame da Ordem, passa as noites à toa.
O título original do filme é "Little Children" (criancinhas). Em matéria de desejo, somos todos criancinhas, incapazes de encontrar a coragem de fazer o que desejamos, mas sempre (e apenas) tentados por potes de geléia."[Calligaris, 01/03/2007]

Wednesday, July 18, 2007

pensamentos rasteiros ou para lembrar aos ingleses da importância de revoltas aparentemente sem futuro

Renato me diz que é difícil explicar aos ingleses que alguém vaie um símbolo do Estado, na ocasião perversa em que se dá a conjunção de esporte, celebração e aparências políticas. Eu, confesso, como sempre penso mal e incompletamente sobre esse governo. É que não tenho mais paciência pra tantas mediações, para tantas variáveis que as pessoas não se cansam de acrescentar tautologicamente à simples equação do engodo. Tampouco para tanta gente o desculpando, e sempre por que "é um sindicalista de história consistente e honrada". Esse cara merece. Ele despreza a liturgia do cargo tantas vezes,gosta tanto de encher a boca pra dizer que faz e acontece como "nunca antes na história desse país" que merece a afronta. O governo dele mente em lugares e sobre fatos cruciais e isso é inadmissível. A vaia é um troco. É o resultado de pesquisas douradas onde ele aparece como um reizinho. Talvez os ingleses consigam entender, Renato, se você os lembrar do que é uma reação punk: a maravilhosa capacidade de explodir em indignação. De criar para você mesmo "uma situaçãozinha qualquer sem futuro". Ainda bem que o brasil é capaz de ficar de pé a cada vez, depois de uma humilhação, e é algo melhor e mais complexo que seus governantes deslumbrados.